O canto dos pássaros ainda não era ouvido, mas ela já estava acordada. Em meio à penumbra do quarto, virou-se e percebeu que ele ainda dormia. Ela levantou-se, preparou o café e abriu a porta de vidro da sacada, apoiando-se logo em seguida nos balaústres molhados pelo orvalho. Percebeu que o sol já despontava no horizonte e trazia com ele um maravilhoso espetáculo de cores. “O dia vai ser lindo”, pensou. Voltando ao interior da casa, fechou a porta da sacada e dirigiu-se novamente ao quarto. Abriu a porta com cuidado e avistou o homem que dormia como um anjo. Sentou-se ao lado dele e, sem perder tempo, afastou a mecha de cabelo que pendia sobre a testa do amado. “Como você é lindo”, sussurrou. Ele abriu os olhos lentamente e a avistou ao seu lado. “Clara, eu…”, tentou dizer, mas foi interrompido por ela que já lhe desejava bom dia. “Clara, nós precisamos conversar”, disse enfim. “Tome café primeiro, meu anjo; você nem bem despertou”, replicou ela. “Clara, não podemos adiar isso novamente”, disse ele, abruptamente. “Isso o quê?”, perguntou ela. “Você sabe que não dá mais”, ele respondeu. “Claro que dá”, disse ela, “eu te amo, você me ama e isto basta!”. “Não, Clara, você sabe que nosso casamento já acabou”, declarou ele, evitando encarar os olhos dela. Já aos prantos, ela perguntou: “Mas por quê, o que eu fiz?”. “Você não fez nada, Clara, mas tudo perdeu o encanto…”, ele respondeu, levantando-se da cama e dirigindo-se ao guarda-roupa para tirar suas roupas. Ela soluçava. “Por favor, Clara, não podemos continuar assim”, afirmou ele, enquanto colocava as roupas na mala. “Eu não vivo sem você!”, gritou ela, levantando-se e correndo para tentar impedi-lo de fazer as malas. “Clara, por favor, não torne isto mais difícil!”, suplicou ele, desvencilhando-se de Clara. “Eu morrerei sem você, meu amor; por favor, fique aqui!”, exclamou ela. Ele ficou em silêncio. Rapidamente, ela saiu do quarto e o deixou sozinho arrumando suas coisas. Ela abriu a porta da sacada, dirigiu-se até os balaústres e equilibrou-se em cima deles, enquanto as lágrimas corriam em seu rosto. Alguns minutos depois, ele procurou Clara para se despedir e encontrou a porta da sacada aberta. Ele aproximou-se dos balaústres e viu o que jamais queria ter visto: Clara havia se jogado do quarto andar.
* Verso do poema “Lovesong“, de Ted Hughes.
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Dá vergonha de entregar um conto (?) desse para alguém que venceu os prêmios Jabuti 2008, o Bravo! e o Portugal Telecom, não é? Mas já que valia nota, entreguei. Este é um dos resultados da “Oficina de Produção de Texto em Língua Portuguesa” ministrada pelo Professor Cristovão Tezza. Apesar da minha falta de talento, tudo o que tenho aprendido nessa disciplina tem sido de grande ajuda, sem falar no “baita” orgulho que eu sinto em estudar com o Professor Cristovão.
Bom, quando eu crescer, quero ser igual a ele.
PS: levanta a mão quem tem um livro autografado pelo autor de “O filho eterno”! Euuuu! \o/

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