- Ai meu deus, perdão! Eu sou um desastrado!
Essas foram as primeiras palavras dele logo após ter tropeçado e derrubado café na menina que estava sentada na mesa ao lado. Eram palavras sinceras, porque ele sempre fora um pouco desajeitado, ainda mais quando tinha de fazer várias coisas ao mesmo tempo: carregar o café, o jornal e o livro que acabara de comprar na livraria ao lado.
A moça, que por um instante teve vontade de xingá-lo, ao perceber a falta de jeito do rapaz, riu e disse que não havia problema e que não, ele não precisava comprar outra blusa para ela. Viu-o dirigir-se cabisbaixo para a mesa e, com pena, resolveu ir até lá e conversar com menino desajeitado. Ele, ao vê-la sentar-se à sua frente, apressou-se em repetir as mesmas desculpas e ela teve de dizer novamente que tudo estava bem. Ok, se ele quisesse pagar um café para ela como forma de pedir perdão, ela aceitaria.
Após alguns minutos de conversa, já pareciam velhos amigos. Descobriram que eram frequentadores assíduos daquela confeitaria; ela não podia deixar de comprar seu pedaço semanal de torta alemã, “a melhor da cidade”; ele só conseguia ler seus livros em paz naquele lugar e naquela mesa, inclusive. Descobriram que gostavam do mesmo tipo de música e das mesmas bandas. Ela era uma secretária cujo sonho era ser dona de uma livraria; ele, um administrador de um dos escritórios naquela rua cuja maior ambição era ter sua própria banda. A conversa foi interrompida por ele, que já estava atrasado para voltar ao trabalho. Combinaram de se encontrar na mesma confeitaria no dia seguinte, no mesmo horário, na mesma mesa e se despediram.
Encontraram-se no dia seguinte e nos outros também. Conversaram sobre livros, trocaram CDs, contaram piadas sem graça, riram dos outros clientes da confeitaria. Ele, que desde o primeiro momento havia notado a beleza dela, buscava um jeito de convidá-la para sair sem parecer idiota. Ela, que achava o jeito desajeitado dele uma graça, se perguntava se ele nunca a convidaria para sair. E assim os dias passavam; a cada novo encontro, mais próximos ficavam.
Numa tarde, ele esperou por ela, mas foi em vão. Perto da hora de voltar ao trabalho, recebeu um bilhete que dizia para encontrá-la num pub, às 19h daquele mesmo dia. Ele, nervoso, mal conseguiu trabalhar pensando no que faria. Ela o convidara para sair, não podia decepcioná-la. Escolheu as roupas que não o deixavam parecer um paspalho qualquer e tomou coragem para sair de casa. Não sabia ao certo o que esperar daquela noite e, para fazer a verdade, tinha medo de fazer alguma coisa errada e estragar tudo.
Ela já estava esperando por ele no bar. Vestia a mesma roupa do dia em que ele derrubou café na blusa dela. Mas agora ela estava muito mais bonita, ele pensou. Se bem que não fazia diferença: ele sempre achava que ela estava mais bonita a cada dia. Ele agradeceu o convite dela e os dois conversaram sobre os mesmos assuntos de sempre. Foram interrompidos por um garçom bigodudo, que gostaria de anotar os pedidos deles.
- A Coca é para a sua namorada?
- Ehhhh… sim, é para ela, mas ela não é minha namorada.
- E está esperando o que, jovem? Não vê que ela está dando sopa?
Os dois riram e ele não sabia onde colocar a cara. Sim, ela estava “dando sopa”, mas ele não sabia o que fazer nem o que dizer. Ela era moderna demais para essa coisa de “pedir em namoro”, nem adiantava tentar. Todos esses pensamentos ruiram quando ela colocou sua mão em cima da dele. De repente, ele passou a reconsiderar toda a sua opinião. Se não tentasse, perderia talvez a melhor oportunidade de sua vida.
* * *
Hoje, ao vê-la dormir tão profundamente, ele pensa em como os pequenos detalhes fazem a diferença, desde um tropeço até um garçom bigodudo. Ela ainda trabalha no mesmo escritório e ele nunca chegou a montar sua banda, mas os dois não têm dúvidas de que a vida não poderia ter tomado um caminho melhor. E quando ele alisa a barriga dela e pensa no filho que em breve chegará, tem certeza de que os acasos são as melhores coisas que podem acontecer a alguém. O destino, como diria algum pensador por aí, é só a desculpa de quem tem medo de arriscar.

Excelente! adorei seu conto e sua maneira de escrever.
Oba
O post veio!
Adorei… Não sei se tinha alguma coisa a ver com a intenção do post, mas me deu saudade de começo de namoro
Bjo!!!
Não sei qual era a intenção, mas acho que pode ser essa mesmo. É sobre o começo de uma história. =)
Pingback: O primeiro beijo | Anita Bacana
Ai, que lindo. Eu aqui, acostumada a ler contos com finais trágicos, só fiquei esperando a hora em que tudo daria errado. Foi uma boa surpresa tudo ter ficado bem.
Beijos.