Tenho certa predileção por romances dos séculos XVIII e XIX, principalmente os escritos por mulheres. Numa era em que elas não tinham voz alguma, a escrita servia como expressão vivaz do mundo feminino. Os romances são cheios de amor, aventura e fantasia – exatamente o que as mulheres não viviam naquela época – e sempre terminam bem, com o casamento da heroína e seu lindo mocinho.
Jane Eyre (1847), de Charlotte Brontë, é assim. A protagonista, Jane, é uma órfã adotada pelo tio materno, Mr. Reeds, que fatalmente morre pouco tempo depois. Deixada aos cuidados da tia, Mrs. Reeds, Jane sofre todo o tipo de humilhação por ser pobre e viver de favor. Mas a heroína, mesmo criança, não se resigna; de gênio forte, enfrenta todos que a fazem sofrer. Para aprender a se comportar – e, consequentemente, deixar de ser um fardo para os Reeds -, Jane é enviada a uma escola, onde passa oito anos sem contato algum com a família.
Aos dezoito anos, Jane decide arrumar um emprego como governanta e é contratada por Mr. Rochester, um homem de muitas posses que adotou uma criança francesa, Adèle. É na residência de Rochester que Jane enfrentará suas primeiras aventuras – o sobrenatural estará presente – e conhecerá o amor. Porém, uma revelação causará nova reviravolta na vida da heroína e ela precisará decidir entre amor e reputação.
A narrativa de Jane Eyre acontece em primeira pessoa (o primeiro título do romance foi Jane Eyre: uma autobiografia) e a protagonista conta sua história a partir da infância. O leitor acompanha o desenvolvimento físico e moral da personagem, que enfrenta várias dificuldades para adaptar-se à vida adulta. Charlotte Brontë também utiliza uma técnica predominante na época, o diálogo denso e constante. É possível descobrir a visão de mundo de cada personagem através de suas falas; as personagens com mais instrução possuem ótima retórica, enquanto os empregados têm vocabulário escasso. Jane Eyre, assim como outros romances da época, educa moralmente as leitoras, mostrando o comportamento feminino esperado pela sociedade.
O romance me encantou em vários pontos. Em primeiro lugar, a delicadeza na descrição de personagens, traço comum dos romances dos séculos XVIII e XIX, fascina – é necessário ter muita habilidade para descrever acuradamente cada personagem importante ao romance. Em segundo lugar, a maneira como o amor é descrito é encantadora, pois é simples e, ao mesmo tempo, forte e certeira. O amor de Jane Eyre é puro e capaz de enxergar beleza até em quem não tem beleza alguma:
Mais verdadeiro é que “a beleza está nos olhos de quem vê”. O rosto sem cores do meu mestre, sua face de oliva, sua testa quadrada e massiva, suas sobrancelhas largas e negras, seus olhos profundos, suas características fortes, sua boca firme e severa – toda energia, decisão, desejo – não eram bonitos de acordo com a regra; mas eram mais que bonitos para mim; eles eram cheios de interesse, uma influencia que quase me dominava – que tomou meus sentimentos de meu próprio poder e acorrentou-os ao dele. Eu não tive a intenção de amá-lo; o leitor sabe que eu lutei fortemente para extirpar de minha alma os germes do amor lá detectados; e agora, à primeira visão renovada dele, eles espontaneamente surgiram, verdes e fortes! Ele me fez amá-lo sem olhar para mim. (BRONTË, C. Jane Eyre. London: Collector’s Library, 2003. P. 252, tradução minha)
A leitura de Jane Eyre é divertida, mas lenta. As seiscentas páginas do romance não são lidas rapidamente e nem devem ser, pois os diálogos e as descrições precisam ser lidos com calma para serem compreendidos. O leitor ri com as coincidências e sofre junto com a heroína, exatamente o que Charlotte Brontë esperava, penso eu.
PS: Charlotte Brontë não é a autora de O morro dos ventos uivantes. Quem escreveu esse romance foi a irmã dela, Emily. Juntamente com outra irmã, Anne, as Brontë formaram uma família de escritoras aclamadas em sua época.
PPS: Há vários filmes e peças baseados em Jane Eyre. Em 2011, foi lançada a obra mais recente, o filme com Mia Wasikowska como Jane Eyre e Michael Fassbender como Mr. Rochester. Para ver o trailer, clique aqui.


Ó lá, o layout novo. Ficou bonito, Cami.
Não li nenhum livro das Bronté. Mas esse foi um que eu sempre tive curiosidade, e é bem interessante pensar nessa ótica da vo feminina na época que era praticamente nula.
Dá mais vontade de ler por conta disso também.
Ainda tô mexendo no blog. Uma hora eu deixo do jeito que eu quero.
Sim, a ótica feminina é um ponto interessantíssimo nesse tipo de romance. Era a única maneira de expressão possível – e olha que mulher escrevendo e publicando era algo “peculiar” naquela época, tanto que as Brontë publicaram as primeiras edições de seus livros utilizando pseudônimos masculinos. Mas apesar de serem a voz das mulheres, os romances refletiam a moral da época, que não era nada libertária. Era uma liberdade cerceada.